dezembro 01, 2012

Compositor Getúlio Côrtes, o negro gato da jovem guarda



Como escreveu Paulo César Araújo, o biógrafo de Roberto Carlos, a maioria dos compositores das canções que o Rei cantava, nos seus primeiros discos, era de origem negra e pobre. A gente lia, nos selos e capas, os nomes de Helena dos Santos, Nenéo e Pilombêta, sem se dar conta de que cara e cor tinham aqueles autores. Destes, o mais presente nos discos de Roberto dos anos 60 e 70, além do próprio e de Erasmo, era Getúlio Côrtes, com até duas faixas por LP.

Getúlio é o autor da antológica Negro gato e mais Noite de terror, O feio (com Renato Barros), Pega ladrão, O gênio e O sósia, canções que contam historinhas, aventuras urbanas, aparentadas da linguagem dos quadrinhos e do cinema, rápidas, ritmicamente aceleradas, de uma sensibilidade pop que será incorporada à linguagem da chamada MPB na posterior Baby, de Caetano. Por esse prisma, Getúlio é pré-tropicalista, e sabia da "piscina, da margarina e da gasolina". Quando essas canções foram gravadas, de 65 a 67, não se considerava que Roberto Carlos fazia música brasileira. Mas era. E era a Jovem Guarda. Era Getúlio Côrtes, pop e moderno.

Nas canções de Getúlio, um universo identificado com a juventude rebelde à James Dean & Elvis, com um quê de malandragem nativa: Frankesteins; um homem perseguido porque roubou um coração, outro sujeito feio pra danar, mas querido pelas mulheres, um gênio da lâmpada que dá um baile no seu Aladim, rouba a garota dele e ainda se instala na casa do cara, Macunaíma do rock. E tem aquela do "cara com a minha cara, mora!", seu duplo, William Wilson tropical, O sósia.

Do Negro gato, por exemplo, sempre relacionada à temática negra, Getúlio fez questão de dizer que a inspiração veio de um gato mesmo, que o atormentava à noite, nos tempos da juventude. A música foi gravada, primeiro, por Renato e seus Bluecaps, depois por Roberto, bem mais tarde, por Luis Melodia, e ainda Marisa Monte. Melodia canta a canção lindamente, mas as melhores gravações ainda são as primeiras, com Renato e, sobretudo, Roberto.

Nestas, o gato está íntegro, sujo, despojado, vagabundo e vulgar. São gravações proto-punks, sem chiquê, cruas. Instrumentação básica de rock, sem virtuosismo, simples e até tosca. Roberto vai direto ao assunto, sem variar, e mostra porque é um dos maiores intérpretes do rock no Brasil.

O próprio Getúlio, que compôs também canções de amor, mais "adultas", foi sugerido pelo Rei a sair do seu universo infantil, e não se fez de rogado. Seu material romântico é matador, a julgar por suas canções do primeiro disco "maduro" de Roberto, O inimitável, de 1968: O tempo vai apagar (com Paulo César Barros) e Quase fui lhe procurar, também regravada por Luis Melodia.

Sob um olhar mais atento, porém, na fase "inocente", a gente vai descobrindo a malícia de O feio. Sapato 54, "vasto narigão/ me lembra um grande pimentão", "careca e bem sisudo", além de "bicudo", qual o motivo de tanta sedução? Ora, o feio é o falo.


Obs. Alguns sites com letras de música como: http://letras.mus.br/roberto-carlos-erasmo-carlos/690001/
informam que os compositores de 'Negro Gato' são Roberto e Erasmo, porque ?, também não sei.

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